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Pelo Caminho

Pelo Caminho

“Quatro pessoas desconhecidas encaram os desafios do dia a dia em Nova York. Mas, quando seus caminhos se cruzam, suas vidas mudam para sempre.”

Essa é a sinopse um tanto quanto humilde de “Pelo Caminho”, uma série despretensiosa e quase escondida no catálogo da Netflix.

E de certo modo é isso mesmo que ela é. Simples, despretensiosa, sem grandes acontecimentos ou reviravoltas. Nem mesmo atores de blockbuster o elenco tem (sem menosprezar ninguém! Só estou dizendo que não há nomes como “Julia Roberts” no catálogo).

Mas tratar “Pelo Caminho” com tamanha simplicidade é uma injustiça gigantesca. Dentro de toda sua humildade e com uma delicadeza tocante, a série aborda temas sensíveis e tão cotidianos quanto nossas próprias vidas.

Luto, desemprego, doenças, separações, dores e recomeços. Tudo costurado em um emaranhado quase perfeito, tal como a vida tece a nossa própria história.

O nome original “Ripple”, em inglês, representa muito bem essa essência. Significa ondulação, pequena onda na superfície da água. Representa meio que um efeito cascata ou dominó. Exatamente como a trama da vida em sua essência.

E o cenário para orquestrar essa ondulação não poderia ser mais perfeito: o caos nova iorquino. Tudo que acontece em “Pelo Caminho” poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, na menor cidade de todas ou em qualquer cultura. Mas é justamente o fato de Nova Iorque ser tão grande e caótica que torna as conexões geradas no enredo ainda mais significativas.

E também é pequeno demais dizer que a trama acompanha quatro estranhos, quando você inesperadamente se vê apegado em bem mais do que quatro pessoas ao longo dos episódios. Cada pequeno personagem ganha um papel importante demais para ser desconsiderado nessa conta, ainda que alguns deles sejam apenas temporários. E talvez seja isso que acontece em nossas vidas também, tão sutilmente feita de ciclos que tem começo, meio e fim, com os quais nem sempre lidamos com facilidade.

Você começa a ver a trama achando que vai ser só um passatempo. Mas duvido não se conectar com algumas histórias e sentimentos retratados ‘pelo caminho’. Ou bem mais do que uma.

E assim como a série também deixa aberta sua interpretação sobre os fios da vida e como nada acontece por acaso, talvez “Pelo Caminho” também não tenha aparecido apenas como mero acaso neste momento da minha vida, em que eu precisava desse abraço carinhoso, trazendo tanta coisa ali que eu precisava ver, ouvir e viver/reviver.

Histórias que assistimos e vivemos (SPOILERS, vários!)

Cada personagem de Pelo Caminho guarda suas complexidades. E o mais interessante é que nem todos precisam ser apresentados em mínimos detalhes para você entender todo background de vida que eles guardam por trás daquele recorte apresentado na temporada.

O que liga cada um deles são conexões inesperadas.

E aqui eu estou conversando com alguém que também já assistiu a série, porque provavelmente não darei todos os detalhes necessários e merecidos para alguém que ainda não assistiu.

Tudo começa com Kris, uma executiva da indústria musical que enfrenta a pressão de ceder aos valores da indústria de massa ou se manter fiel ao seu instinto de buscar talentos verdadeiros em sua essência. Ela escolhe o idealismo e encontra o desemprego. Perdida, entra em um bar, onde conhece Aria, Nate e Walter. Ela encontra em Aria um novo talento e inspirada por um papo despretensioso na rua com o primeiro talento que ajudou a lançar, resolve abrir seu próprio selo após uma entrevista de emprego onde não conseguiu encontrar identificação porque teria de voltar aos mesmos valores de massa nos quais não acredita. Ao longo da trama, Kris enfrenta a queda de seus padrões de vida, os desafios de se reencontrar profissionalmente, a decepção com Aria e o perdão para manter a amizade entre as duas e dilemas pessoais paralelos complexos. De um lado, a reconciliação com o pai, com quem não fala há 20 anos por uma ironia do destino (um interfone quebrado), que agora está em seu leito de morte e com quem ela não teve a chance de concertar as coisas antes dele partir. E de outro, o inesperado encantamento por Nate após muitos anos sem esperar por um novo relacionamento, que está em processo de divórcio e enfrentando um câncer recém-descoberto. Uma mulher na casa dos 40, recomeçando em tudo na vida, perdida e sem saber o que vem pela frente? Oi, Kris! Tamo junto. Você, eu e um incontável número de mulheres. Que enfrentam histórias com detalhes diferentes mas podem facilmente se identificar com esse enredo.

Nate é dono de um bar/café que está passando por um processo de separação depois de diversas situações financeiras complicadas com a ex que geraram uma quebra de confiança. Com uma filha surda-muda, contas que não fecham e a separação, de repente ele se vê confrontado por um diagnóstico inesperado de câncer de pulmão. recebe o apoio da ex-mulher em toda jornada do tratamento, assim como de Kris, com quem desenvolve uma conexão que o encanta e assusta ao mesmo tempo. E encontra pelo caminho um cliente que vira faz tudo, vira amigo e vira parceiro de negócios. Nate é aquele cara que quer segurar o mundo nas costas. Família, negócios, funcionários, amigos. Ele quer ser forte para dar conta de tudo, mesmo sabendo que não tem como, e não quer aceitar ou pedir ajudar (Oi! Aqueles que se identificam já podem levantar a mão aqui, tá!). Mas a vida cobra a conta. Mas quando o questionamento sobre isso vem à tona, quem lhe dá a maior lição é Finn, uma garotinha que conhece no hospital durante as quimioterapias e de quem vira amigo. E não, eu ainda não tô conseguindo superar a morte da Finn…. Essa trama paralela e toda jornada da vaga no estudo clínico vai derrubar qualquer pessoa junto.

Walter, ahhhh… Que personagem maravilhoso, um sopro de alegria por onde passa, ainda que esteja enfrentando sua maior tristeza. Muito antes de se tornar parceiro de Nate no Lumi West, Walter vive o luto pela perda de sua Brenda. E dói fundo em cada um de nós (qualquer um que já perdeu alguém que ama, não importa se companheiro, mãe, pai, amigo ou o quê, vai sentir isso aqui lá no fundo do coração). A companheira que ele conheceu já tarde na vida era seu par, seu complemento, sua outra metade. É tudo aquilo que qualquer um de nós gostaria de encontrar um dia. O Lumi West era o lugar que ela apresentou ao Walter em um de seus últimos encontros. E é ali que ele vai para recordar dela. E também onde acaba encontrando uma nova família para chamar de sua. Aos poucos, com a ajuda de cada um, ele vai retomando a vida e a rotina, mas não sem passar por todas as dificuldades que o luto carrega. Existem várias subtramas e personagens aqui, mas eu acho que Ellie é provavelmente a conexão mais especial de todas na vida de Walter para o desenvolvimento de tudo que veio depois. Dá pra quase sentir uma relação paternal entre eles. Porque Walter é isso. É a personificação da alegria e do amor por onde passa. Há momento em que você quer colocá-lo no colo. E momentos em que quer ser colocada em seu colo. O mundo precisa de mais Walters. E quando você encontrar um assim por aí, pare um minuto na sua corrida diária maluca da vida e aproveite este tempo tão precioso com ele, ainda que sejam cinco minutos na fila da padaria. E já estou ansiosa para, se tivermos uma segunda temporada, ver Walter vivendo dias mais felizes ao se ligar à família do homem que recebeu o coração de Brenda na doação de órgãos e que pode até gerar um novo par romântico para ele, já que o destino já quase os uniu duas vezes “pelo caminho” durante a inscrição do viúvo pelos amigos em um app de namoro (que ele cancelou) e quando ele quase encontrou a bolinha de golfe que precisava para massagear os pés (que foi arremessada por ela).

Aria, por sua vez, é uma aspirante a musicista que está enfrentando as dores da infertilidade e um casamento abalado pelo desejo frustrado de formar uma família. É Kris quem a tira das profundezas e resgata sua vontade de viver através de música. E há muito mais complexidade na trama de Aria do que pode parecer. A pressão da mãe pela carreira musical perfeita. O casamento repleto de rachaduras com John e a infidelidade que ela ainda desconhece. A linha tênue entre confiança e fidelidade à Kris por tudo que fez por ela ou o desejo de alavancar a carreira em um selo de grande renome. Mas para mim, o grande destaque de Aria pode ser dividido em dois pontos. O primeiro deles são suas músicas. As letras profundas de cada composição pegam fundo na alma de quem assiste. É quase como se tivessem sido escritas para conversar diretamente com você. Um misto de acolhimento e de sentimento sendo trabalhado através da musicaterapia…. E o segundo é a ligação entre Aria e Mo, que era pra ser só um suporte sobre a internet para Aria continuar assistindo suas séries como conforto emocional após um aborto, mas se torna a ligação de suporte emocional mais bela de todas, com Mo compartilhando com a cliente sua história de infertilidade, um casamento desfeito e recomeço de toda uma história de vida. Quantas e quantas mulheres passam por desafios biológicos e emocionais gigantescos pelo sonho da maternidade em uma luta que é tão silenciosa e solitária… Isso aqui foi tão sensível e importante que nem tem preço.

E aí temos finalmente os sub personagens, mas que é impossível serem relegados apenas ao posto de sub.

Ellie, o braço direito de Nate no Lumi West, é a primeira delas. Ela guarda o sonho de ser descoberta profissionalmente em sua paixão pela arte e fotografia (o que acontece de um jeito muuuito legal no finzinho da temporada) ao mesmo tempo em que vivencia o drama de escolher entre viver sua paixão ou manter quem ela mesma é. E a lição aqui é: às vezes só o amor, por maior que seja, não é o suficiente. É preciso mais para que tudo funcione. E ela não abriu mão de ir com a namorada para Montana apenas para ajudar Nate com o Lumi durante o câncer. É porque Ellie não se via em outro lugar que não Nova Iorque. E se isso era uma sensação forte o suficiente para fazê-la ficar, então talvez o amor pela namorada recente não fosse tão sólido assim. Mas quanta gente já não vivenciou dúvidas e renúncias assim um dia. Sem contar que Ellie é o motorzinho da série e da dinâmica entre uma infinidade de personagens na trama. Ela merece mais destaque, mas é exatamente como aquelas pessoas que, na vida, são motores constantes trabalhando nos bastidores, sem se preocupar em brilhar, apenas em fazer o mundo todo continuar girando, e que muitas vezes as pessoas não percebem.

Tara é outra pessoa com papel especial na trama. Amiga da igreja de Brenda, é ela quem ajuda Walter durante a fase inicial do luto e acaba se tornando sua grande amiga e parte do grupo do Lumi West. Seu papel principal aqui é mostrar que mesmo quem ajuda, às vezes também enfrenta seus fantasmas e dificuldades e precisa aprender a lidar com eles, como acontece quando ela, também viúva, inicia um novo relacionamento.

E Finn…. Ai meu coração… Que garota especial. Não bastasse a lição que ela traz ao representar uma infinidade de crianças que, na vida real, enfrentam o câncer e tantas outras doenças com a mesma coragem de sua personagem – e que é maior do que muitos adultos! – ela ainda nos derruba no final com a lição de vida que deixa à Nate. Eu sei que numa série que representa a vida real não tem como ter final feliz para todo mundo. E esse é outro ponto superespecial de “Pelo Caminho”, porque a trama não tenta maquiar a realidade com finais felizes. Ao contrário, ela esfrega a realidade na nossa cara o tempo todo. Sem filtros, sem véus, sem mágica. É o nosso papel é lidar com a dor da melhor maneira que podemos.

No fundo a vida é isso mesmo. Uma bela composição de alegrias e dores. Sem as dores, as alegrias não teriam tanto importância. Seriam apenas comuns. Não aprenderíamos a valorizar as pequenas coisas. E a ver o grandioso no simples.

Ainda estou saudosa de “Shrinking” e aguardando a próxima temporada dela e de “Ted Lasso”, mas confesso que não esperava ficar órfã dessa série quando comecei. Porém estou. Não tenho nem coragem de começar outra no dia seguinte, porque sinto que ainda estou apegada nela e quase com vontade de rever tudo de novo. E talvez eu faça isso.

Mas o dia que você estiver procurando algo para assistir, que não se importe de derramar umas lágrimas e esteja disposto a receber um abraço quentinho, então dê uma chance à “Pelo Caminho”. Ela ganhou meu coração. E acho que também pode ganhar o seu.

Menção honrosa à trilha sonora que acompanha a essência da série e à introdução narrativa especial de cada episódio com falas que deveriam se tornar frases em um belo livro de lições e lembretes sobre a vida.

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